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CRISE: Primeiro ano do governo FHC em 1996, foi igual ao atual da Dilma Rousseff

março 31
12:37 2015

“Recusar-se ao diálogo, dizer não às reformas, é ficar condenado a ser reacionário. Reagem contra tudo. Isso é que era a verdadeira direita reacionária do passado. Agora, uns querem ser a vanguarda e viram reacionários.” Não, a frase não é resultado de uma reação abrupta, e até agora inédita, da presidenta Dilma Rousseff ao jogo duro ensaiado pela dupla Renan Calheiros-Eduardo Cunha no Congresso. Foi dita por Fernando Henrique Cardoso há exatos 20 anos e está registrada na edição de 30 de março de 1995 daFolha de S.Paulo.

Cheguei a ela após fechar o jornal, na edição de 30 de março de 2015, com a sensação aguda de que vivemos o pior momento da República, quiçá do universo. Pelo arquivo do diário, voltei ao tempo como quem busca um respiro – e para saber se há 20 anos estaríamos menos angustiados do estamos hoje. O que encontrei é um mundo assustadoramente parecido com o atual.

Na manchete do caderno de política, o presidente recém-eleito dizia não se conformar com a má vontade dos parlamentares diante das reformas (tributária e previdenciária) encaminhadas pelo governo. “A reforma vai demorar mais tempo do que imaginava. Essa é uma questão política que tem que ser negociada. Nós somos a expressão da responsabilidade popular. A única expressão democrática. O resto é gritaria. O governo entende o papel do Congresso. Esse papel não é dizer sim. É dizer o que acha que deve ser feito.”

O recado, 20 anos antes de Calheiros dizer no Senado que o Congresso não seria um anexo do Executivo, era claro. Fazia parte de uma ofensiva do PSDB à tentativa do seu maior aliado, o PMDB, de se antecipar ao governo na discussão das reformas. A bancada tucana na Câmara apostava uma corrida com os aliados pero no mucho para centralizar as discussões de matérias referentes, por exemplo, às novas regras de tributação. Os peemedebistas, porém, aproveitavam a demora do governo em enviar ao Congresso seu projeto de emenda constitucional e encampavam outra proposta, com outros interesses contemplados, de autoria do então deputado Luís Roberto Ponte (PMDB-RS).

A indefinição sobre as reformas causava apreensão nos mercados – sim, sempre eles. Na edição do caderno de economia, representantes do capital alemão se diziam preocupados com a “força política” que se formava no país para combater todas as “propostas de reformas de sustentação do Plano Real”. Sem essa definição, não haveria como colocar dinheiro por aqui, argumentavam.

Em meio ao tiroteio, a oposição tentava ganhar musculatura. Luiz Inácio Lula da Silva anunciava a articulação de uma Frente de esquerda para se opor às medidas do governo FHC. Os petistas flertavam com o líder do PDT Leonel Brizola e o então governador de Pernambuco Miguel Arraes (PSB). Vinte anos depois, a articulação, revigorada pela experiência uruguaia de união de forças progressistas, volta à agenda do agora ex-presidente para reagir à crise juntamente com os movimentos sociais. A diferença é que, agora, quem tenta emplacar as reformas, “duras mas necessárias”, é um governo petista. E quem flerta com o PSB são os tucanos.

“O governo começou as reformas de forma equivocada”, dizia Lula. “O governo manda, como proposta prioritária, uma mudança no capítulo da Ordem Econômica para entregar empresas estatais importantes para o capital estrangeiro e para os grandes grupos econômicos”. Diante do movimento, Lula prometia participar de um ato político na Petrobras em defesa da instalação da refinaria de petróleo em Pernambuco.

Em 95, os ministros de FHC eram escalados para apaziguar os ânimos diante do remédio amargo. Clóvis Carvalho (Gabinete Civil) e Reinhold Stephanes (Previdência) haviam acabado de beijar a mão dos bispos da CNBB para garantir que apenas as distorções seriam corrigidas. A Igreja era resistente a mudanças na Previdência e se dizia preocupada com a queda dos salários de quem já havia se aposentado.

Além do périplo com entidades e congressistas, mais ou menos como acontece hoje com os surrados Joaquim Levy (Fazenda) e Pepe Vargas (Relações Institucionais), os atuais portadores das trombetas do apocalipse, o governo brigava para usar o espaço das emissoras de rádio e TV para veiculação de campanhas a favor das reformas. O Whatsapp só seria criado 14 anos depois, e não houve registros depanelaços organizados para antes e depois dos anúncios feitos pelo presidente.

Em São Paulo, a bronca era outra: o governador Mário Covas enfrentava sua primeira greve de professores da rede estadual de ensino, que atingia 3 milhões de estudantes. O movimento pedia aumento do piso dos professores, calculado em R$ 141 em valores da época. O governo tucano, que passaria os próximos 20 anos no Palácio dos Bandeirantes, propunha aumento para R$ 180.

Nas notícias internacionais, março de 1995 é quase ontem. O aquecimento global já era motivo de apreensão, com a diferença de que o Brasil era mais enfático ao cobrar dos países industrializados o cumprimento das determinações da Convenção do Clima assinada em 1992, no Rio de Janeiro. O acordo internacional com objetivos mais específicos contra o efeito estufa, previa (acertadamente) o jornal, estava longe de ser definido.

A Al Qaeda ainda não ganhava destaque e grupos como Boko Haran não haviam se organizado, mas a guerra ao terror já aparecia como a solução de todos os tumores quando tropas argelinas mataram 1.300 militantes supostos fundamentalistas – islâmicos, claro. Enquanto isso, o papa João Paulo 2º apresentava os primeiros pontos da 11ª encíclica de seu pontificado. A carta reafirmava a condenação do aborto e da eutanásia, classificados como produto da “cultura da morte” e da “impressionante multiplicação e aprofundamento das ameaças à vida das pessoas, especialmente quando essa é débil e indefesa”. “Quando se nega o direito à vida, a democracia caminha rumo ao totalitarismo.”

Na música Cachorro Urubu, Raul Seixas se queixava do anúncio do fim do mundo toda vez que abria o jornal. “A gente ainda nem começou”, previa. Sabia do que estava falando. Inveja mesmo, só no caderno de esportes, quando o Palmeiras, atual bicampeão paulista e brasileiro, se preparava para encarar o hoje falido União São João de Araras. O time reserva que iria a campo pelo Paulistão contava com Valber e Alex Alves no ataque – seguramente titulares absolutos hoje. Na seleção, o drama de Zagallo para o time da Copa América era escolher entre Romário, Ronaldo, Bebeto e Amoroso. Roberto Firmino, herói do jogo de ontem contra o Chile, tinha apenas quatro anos. (Do Blog do Matheus Pichonelli)

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