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Poder e comando de Eduardo Cunha começa a enfraquecer na Câmara

maio 21
13:01 2015

O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) chegou como um trator à presidência da Câmara. Peitou o candidato do governo, fez troça das manobras do Planalto para barrá-lo, desautorizou os emissários petistas, dobrou a base aliada. Em poucas semanas, impôs sua agenda aos deputados e declarou independência do Executivo. Tirou da gaveta a PEC da Bengala (que estende a idade de aposentadoria de ministros de cortes superiores para 75 anos), alavancou o projeto da terceirização, flertou com o Estatuto da Família e com a revogação da do Desarmamento, cogitou mudar as regras para reeleger-se em 2017 e encampou a ideia para a construção de um shopping nas imediações do Congresso.

Quem acompanha a ascensão do presidente da Câmara chega a se surpreender com a capacidade de articulação do deputado. Ele conhece como poucos o regimento interno da Casa e é capaz de fazer, em entrevistas, as melhores análises da atualidade sobre a conjuntura política. É nela que ele surfa. Como mostrou o repórter André Barrocal, da CartaCapital, Cunha é quem melhor entende e explora o caótico sistema político atual – um sistema com partidos demais, fragmentos demais, e consistência de menos.

A personalidade do deputado, conforme previa a reportagem, começa a produzir faíscas. “No comando das sessões, a portas fechadas ou em entrevistas, ele costuma ser ríspido, impaciente, soberbo e debochado, principalmente quando alguém ensaia contestá-lo. A votação da lei da terceirização foi um festival de insensibilidade”, resume o texto.

Esse deboche provocou a primeira grande rusga pública com um comandado nesta semana. Ao responder as críticas de Cunha às usas opiniões sobre a reforma política, mais recente empreitada do presidente da Câmara, o relator Marcelo Castro (PMDB-PI) foi categórico: “Ele deveria ter escolhido um relator mais submisso à vontade dele”.

O relator do projeto se opõe ao “distritão”, que elege o candidato a deputado ou vereador mais votado em localidade determinada. A proposta, que substitui o sistema proporcional, é criticada por favorecer caciques locais e enfraquecer candidatos ligados a minorias, cujos votos são pulverizados fora de redutos tradicionais.

A rusga se soma ao bate-boca público entre Cunha e Renan Calheiros, presidente do Senado que, incomodado com o acúmulo de poder do colega de partido, anunciou não ter pressa para avaliar projetos caros ao deputado, como o da terceirização. Cunha bateu o pé e fez beicinho: “pau que dá em Chico também dá em Francisco”. Ou seja: a Câmara devolveria com a mesma má vontade os projetos encampados pelos senadores.

A briga tem tanto de vaidade quanto de interesse. Ambos são igualmente investigados na Operação Java Jato, e igualmente interessados no desgaste do governo do qual fazem parte. Mas os interesses comuns param ali. Na distribuição de cargos no governo, há um PMDB na Câmara e outro no Senado. Uns boicotam a posse do ministro dos outros.

Cada um tem suas guerras particulares, e nelas parecem afundar sozinhos. Na votação que definiu a aprovação de Luiz Fachin para o Supremo Tribunal Federal, na última terça-feira, o presidente do Senado perdeu a queda de braço não apenas para o governo combalido, mas para o próprio partido. Romero Jucá e Eunício Oliveira, possíveis substitutos de Renan na presidência do Senado, decidiram peitar o chefe da Casa ao pedir votos ao jurista. Não aceitariam, segundo apuração da Folha de S.Paulo, o papel de “Renan boys”. Fizeram questão de dizer (e mostrar) que ele não é dono do Senado.

Moral da história: fragmentado em ilhas de vaidade e arrogância, o PMDB, e não o governo ou qualquer partido rival, tornou-se o principal redutor de suas forças até ontem descontroladas. Cunha e Renan já não se bicavam enquanto mediam forças. Descobrem agora que não têm o comando de suas próprias Casas. Nem a força que pensavam(os) ter.

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